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quarta-feira, 20 de abril de 2011
História Estranha, por Luis Fernando Veríssimo
Um homem vem caminhando por um parque quando de repente se vê com sete anos de idade. Está com quarenta, quarenta e poucos. De repente dá com ele mesmo chutando uma bola perto de um banco onde está a sua babá fazendo tricó. Não tem a menor dúvida que é ele mesmo. Reconhce a sua própria cara, reconhece o banco e a babá. Tem uma vaga lembrança daquela cena. Um dia ele estava jogando bola no parque quando de repente aproximou-se um homem e...
O homem aproxima-se dele mesmo. Ajoelha-se, põe as mãos nos seus ombros e olha nos seus olhos. Seus olhos se enchem de lágrimas. Sente uma coisa no peito. Que coisa é a vida. Que coisa pior ainda é o tempo. Como eu era inocente. Como os meus olhos eram limpos. O homem tenta dizer alguma coisa, mas não encontra o que dizer. Apenas abraça a si mesmo, longamente. Depois sai caminhando, chorando, sem olhar para trás.
O garoto fica olhando para a sua figura que se afasta. Também se reconheceu. E fica pensando, aborrecido: quando eu tiver quarenta, quarenta e poucos, como eu vou ser sentimental!
Há algum tempo que não venho cá postar nada. Nem muito menos me dirigir ao público que visita este Blog. Talvez essa seja a primeira vez em que você me vê através das minhas próprias palavras. Sem ter um texto literário para encobrir o meu eu interior. Hoje estou tentando ver na vida um novo recomeço; um novo caminho. Procurei ajuda médica há alguns dias atrás; talvez já faça um mês. Mas isso não importa quando se tem uma cabeça distraída como a minha. Considero-me uma pessoa estranha aos olhos da sociedade. Mas, falando realmente, quem não é estranho? Não há nesse mundo nem noutro pessoa tão perfeita ou tão sem erros. Confesso que ainda estou inseguro. Mas com a ajuda da minha princesinha (da Stefany) sei que nada é impossível de se conseguir. Agora trilho um caminho rodeado de rosas; donde se vê o céu azul e se pisa em nuvens fofas como algodão. Agora sei que posso dormir à noite e ter bons sonhos. Agora estou aprendendo a viver de novo.
Obrigado, minha eterna princesinha. Eu te amo muito.
O que isso tem a ver com o texto lá de cima? Tudo! Agora vejo que a minha criança interior ainda não havia morrido. Estava apenas adormecida. Bastava apenas que a minha princesinha soprasse um sopro de vida em meu coração. Vivo e vivo-a. Porque agora somos um só.
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terça-feira, 1 de março de 2011
Aceitação
Ela: E se eu ficar feia?
Ele: Eu fico míope.
Ela: E se eu chorar?
Ele: Eu seco suas lagrimas.
Ela: E se eu ficar muito triste?
Ele: Eu viro palhaço.
Ela: E se eu te chingar?
Ele: Eu fico surdo.
Ela: E se eu não quiser te ver?
Ele: Eu fecho seus olhos e fico do teu lado.
Ela: E se eu ficar gorda?
Ele: Eu quebro o espelho.
Ela: E se eu ficar doente?
Ele: Eu cuido de você.
Ela: E se eu quiser te bater em um momento de raiva?
Ele: Eu te seguro, te abraço e te faço esquecer a raiva.
Ela: E se eu falar que te amo?
Ele: Você vai estar sendo correspondida.
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Infância
As pessoas crescem
Seguindo uma doutrina
Que jamais esquecem
Não importando a sua sina
Elas sempre se comportarão
Como crianças, sem crescer
Como as mesmas aspirações
Que foram induzidas a ter
Veremos um idoso
E observaremos seu olhar
Resplandecerá no seu rosto
O que a infância estava a o ensinar.
Então cuide das crianças
Induzindo-as positivamente
Pois todas as esperanças
Estão contidas em suas mentes
Seus corações só agirão
Como foram ensinados
Elas sempre se lembrarão
Da direção dos seus primeiros passos
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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
O nosso mundo
O sol põe-se no horizonte... Que imagem esplêndida... Gostava de ser o melhor dos pintores, para retratar na tela este fabuloso momento...
Eu que sou um pouco fechado... Tenho receio em partilhar o meu mundo... Talvez também porque outrora fui bem menos receoso... E deixava entrar as pessoas mais facilmente no meu mundo... E quase sempre gostava de tê-las lá... De partilhar o meu mundo... O pior foi quando essas pessoas, por qualquer razão decidiram fazer as malas e partir em viagem... Aí tudo ficava muito feio... Eu ficava bastante triste... Angustiado... Por vezes revoltado... Algumas vezes eu próprio queria abandonar o meu mundo... E depois de o tempo ir curando essa ferida, esse sentimento de fuga ia-se desvanecendo... E vinha o sentimento de egoísmo... De vontade de não partilhar mais... De medo de partilhar o mundo...
Daí guardar muito as coisas especiais para mim mesmo... Naquele cantinho, onde as tento manter protegidas... Onde não deixo quase ninguém chegar... Tenho receio de partilhá-las... Tenho medo... Tenho medo que elas voem para longe de mim... Tenho medo que o meu mundo se desmorone...
Mas a beleza da vida está em partilhar... Os nossos dias... As nossas noites... Os nossos risos... As nossas lágrimas... Os nossos momentos especiais... E também os menos especiais...Os nossos acordares... Os nossos últimos olhares antes do soneca nos vencer... O NOSSO MUNDO...
E este pôr do sol adorava tê-lo partilhado...
Hoje gostava de partilhar o meu mundo...
Hoje gostava de voltar aos anos de criança... Ao tempo em que dava o maior dos trambolhões de bicicleta... E foram alguns, confesso... Mas no dia seguinte estava novamente a andar... E mais depressa ainda...
Gostava de voltar aos tempos em que acreditava... Sonhava mais facilmente... Não que eu hoje não sonhe... Mas em criança não surgiam as dúvidas... As incertezas... Simplesmente sonhava... E vivia os meus sonhos sem que nada os conseguisse pôr em causa... Sem que nada me tirasse o sorriso da cara...
Hoje gostava de partilhar o meu acordar... Gostava que visses o meu penteado (ou melhor, não penteado) ao acordar... Gostava de partilhar o meu pequeno almoço... O meu leitinho com ovomaltine... As minhas torradas... Os meus cereias...
Gostava de partilhar o meu almoço... O almoço feito pela avó... Almoço é sempre Avó...
Gostava de partilhar o meu passeio... Por onde não é o mais importante... Simplesmente gostava de partilhar um passeio... Sítios não faltariam para passearmos... Eu tenho aqueles sítios... Aqueles locais... Denomino-los de "os meus passeios"... Gostava de partilhá-los... E poder denominá-los de "os nossos passeios"...
Gostava de partilhar o meu jantar... Gostava de partilhar a melhor sopa do mundo... A sopa da pessoa que mais admiro... A sopa da melhor das mães... Hoje gostava que a comesses comigo... Gostava que conhecesses a minha família... A minha bela família... Família que adoro...
Gostava de partilhar as minhas fotos... As fotos da minha vida... Mostrar-te as fotos dos meus momentos especiais... Das minhas pessoas especiais... E depois tirar as nossas fotos... Retratar os nossos momentos...
Gostava de partilhar aqueles filmes... Os meus filmes... Gostava de poder dizer, não os meus, mas sim... Os Nossos Filmes...
Gostava de partilhar as minhas músicas... Aquelas músicas de sempre... De todos os momentos... Músicas de lágrimas... Muitas lágrimas... Mas também grandes sorrisos... Os maiores dos sorrisos... Gostava que elas se tornassem nas nossas músicas...
Gostava que estivesses aqui comigo... A escrever este texto... A tornar o momento especial... A tornar o texto especial... A dar-me a chance de dizer "adoro partilhar contigo" em vez de dizer "gostava de partilhar"...
Gostava de partilhar o momento que já faz parte da rotina das noites de primavera e verão... O momento em que olho as estrelas... Naquele sítio, ou no outro... Uns mais especiais... Outros menos... Mas hoje gostava de poder tornar um sítio no mais especial de todos... As estrelas nas mais brilhantes de sempre... Sabes pq?! Pq gostava de os poder tornar, não no meu sítio, não nas minhas estrelas... Mas sim... NO NOSSO SÍTIO... NAS NOSSAS ESTRELAS...
Gostava de partilhar a chegada do soneca... Tenho a certeza que se a partilhasse, o soneca iria ter uma dura tarefa... Muito dura mesmo... Eu não iria querer ceder-lhe nem por nada deste mundo... Pois estaria feliz por estar a partilhar o meu mundo... E quando acabasse por lhe ceder, iria adormecer com o mais belo dos sorrisos... E esse eu queria tanto partilhar contigo...
Mas há ainda uma coisa que eu queria partilhar... Ou melhor, queria ter... Pois só é possível ter partilhando... Não tendo receio... Queria que tu também não tivesses...
Eu queria partilhar muitas festinhas... Imensas carícias... Aquelas festinhas na cara... No cabelo... No pescoço... Aquelas festinhas que nos deixam todos os pêlos arrepiados... Gostava de partilhar os melhores abraços... Hoje eu gostava que partilhasses comigo... Hoje eu queria que me abraçasses... Hoje eu queria sentir o teu toque... A tua pele...
Hoje queria-te aqui comigo... No meu mundo... No teu mundo... NO NOSSO MUNDO...
Eu que sou um pouco fechado... Tenho receio em partilhar o meu mundo... Talvez também porque outrora fui bem menos receoso... E deixava entrar as pessoas mais facilmente no meu mundo... E quase sempre gostava de tê-las lá... De partilhar o meu mundo... O pior foi quando essas pessoas, por qualquer razão decidiram fazer as malas e partir em viagem... Aí tudo ficava muito feio... Eu ficava bastante triste... Angustiado... Por vezes revoltado... Algumas vezes eu próprio queria abandonar o meu mundo... E depois de o tempo ir curando essa ferida, esse sentimento de fuga ia-se desvanecendo... E vinha o sentimento de egoísmo... De vontade de não partilhar mais... De medo de partilhar o mundo...
Daí guardar muito as coisas especiais para mim mesmo... Naquele cantinho, onde as tento manter protegidas... Onde não deixo quase ninguém chegar... Tenho receio de partilhá-las... Tenho medo... Tenho medo que elas voem para longe de mim... Tenho medo que o meu mundo se desmorone...
Mas a beleza da vida está em partilhar... Os nossos dias... As nossas noites... Os nossos risos... As nossas lágrimas... Os nossos momentos especiais... E também os menos especiais...Os nossos acordares... Os nossos últimos olhares antes do soneca nos vencer... O NOSSO MUNDO...
E este pôr do sol adorava tê-lo partilhado...
Hoje gostava de partilhar o meu mundo...
Hoje gostava de voltar aos anos de criança... Ao tempo em que dava o maior dos trambolhões de bicicleta... E foram alguns, confesso... Mas no dia seguinte estava novamente a andar... E mais depressa ainda...
Gostava de voltar aos tempos em que acreditava... Sonhava mais facilmente... Não que eu hoje não sonhe... Mas em criança não surgiam as dúvidas... As incertezas... Simplesmente sonhava... E vivia os meus sonhos sem que nada os conseguisse pôr em causa... Sem que nada me tirasse o sorriso da cara...
Hoje gostava de partilhar o meu acordar... Gostava que visses o meu penteado (ou melhor, não penteado) ao acordar... Gostava de partilhar o meu pequeno almoço... O meu leitinho com ovomaltine... As minhas torradas... Os meus cereias...
Gostava de partilhar o meu almoço... O almoço feito pela avó... Almoço é sempre Avó...
Gostava de partilhar o meu passeio... Por onde não é o mais importante... Simplesmente gostava de partilhar um passeio... Sítios não faltariam para passearmos... Eu tenho aqueles sítios... Aqueles locais... Denomino-los de "os meus passeios"... Gostava de partilhá-los... E poder denominá-los de "os nossos passeios"...
Gostava de partilhar o meu jantar... Gostava de partilhar a melhor sopa do mundo... A sopa da pessoa que mais admiro... A sopa da melhor das mães... Hoje gostava que a comesses comigo... Gostava que conhecesses a minha família... A minha bela família... Família que adoro...
Gostava de partilhar as minhas fotos... As fotos da minha vida... Mostrar-te as fotos dos meus momentos especiais... Das minhas pessoas especiais... E depois tirar as nossas fotos... Retratar os nossos momentos...
Gostava de partilhar aqueles filmes... Os meus filmes... Gostava de poder dizer, não os meus, mas sim... Os Nossos Filmes...
Gostava de partilhar as minhas músicas... Aquelas músicas de sempre... De todos os momentos... Músicas de lágrimas... Muitas lágrimas... Mas também grandes sorrisos... Os maiores dos sorrisos... Gostava que elas se tornassem nas nossas músicas...
Gostava que estivesses aqui comigo... A escrever este texto... A tornar o momento especial... A tornar o texto especial... A dar-me a chance de dizer "adoro partilhar contigo" em vez de dizer "gostava de partilhar"...
Gostava de partilhar o momento que já faz parte da rotina das noites de primavera e verão... O momento em que olho as estrelas... Naquele sítio, ou no outro... Uns mais especiais... Outros menos... Mas hoje gostava de poder tornar um sítio no mais especial de todos... As estrelas nas mais brilhantes de sempre... Sabes pq?! Pq gostava de os poder tornar, não no meu sítio, não nas minhas estrelas... Mas sim... NO NOSSO SÍTIO... NAS NOSSAS ESTRELAS...
Gostava de partilhar a chegada do soneca... Tenho a certeza que se a partilhasse, o soneca iria ter uma dura tarefa... Muito dura mesmo... Eu não iria querer ceder-lhe nem por nada deste mundo... Pois estaria feliz por estar a partilhar o meu mundo... E quando acabasse por lhe ceder, iria adormecer com o mais belo dos sorrisos... E esse eu queria tanto partilhar contigo...
Mas há ainda uma coisa que eu queria partilhar... Ou melhor, queria ter... Pois só é possível ter partilhando... Não tendo receio... Queria que tu também não tivesses...
Eu queria partilhar muitas festinhas... Imensas carícias... Aquelas festinhas na cara... No cabelo... No pescoço... Aquelas festinhas que nos deixam todos os pêlos arrepiados... Gostava de partilhar os melhores abraços... Hoje eu gostava que partilhasses comigo... Hoje eu queria que me abraçasses... Hoje eu queria sentir o teu toque... A tua pele...
Hoje queria-te aqui comigo... No meu mundo... No teu mundo... NO NOSSO MUNDO...
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O segredo da felicidade
"Certo mercador enviou o filho para aprender o Segredo da Felicidade com o mais sábio de todos os homens. O rapaz andou durante quarenta dias pelo deserto, até chegar a um belo castelo no alto de uma montanha. Lá vivia o Sábio que o rapaz procurava.
Ao invés de encontrar um homem santo, porém, o nosso herói entrou numa sala e viu uma actividade imensa; mercadores entravam e saíam, pessoas conversavam pelos cantos, uma pequena orquestra tocava melodias suaves, e havia uma farta mesa com os mais deliciosos pratos daquela região do mundo. O Sábio conversava com todos, e o rapaz teve que esperar duas horas até chegar a sua vez de ser atendido.
O Sábio escutou atentamente o motivo da visita do rapaz, mas disse-lhe que naquele momento não tinha tempo para lhe revelar o Segredo da Felicidade. Sugeriu que o rapaz desse um passeio pelo seu palácio, e voltasse daí a duas horas.
- Entretanto, quero pedir-te um favor - completou o Sábio, entregando ao rapaz uma colher de chá, onde deitou duas gotas de óleo. - Enquanto estiveres a caminhar, segura esta colhar na mão sem deixares que o óleo seja derramado.
O rapaz começou a subir e a descer as escadarias do palácio, mantendo sempre os olhos fixos na colher. Ao fim de duas horas, voltou à presença do Sábio.
- Então - perguntou o Sábio - viste as tapeçarias da Pérsia que estão na sala de jantar? Viste o jardim que o Mestre dos Jardineiros levou dez anos a criar? Reparaste nos belos pergaminhos da minha biblioteca?
O rapaz, envergonhado, confessou que não tinha visto nada. A sua única preocupação fora a de não derramar as gotas de óleo que o Sábio lhe tinha confiado.
Pois então volta e conhece as maravilhas do meu mundo - disse o Sábio. - Não podes confiar num homem se não conheceres a sua casa.
Já mais tranquilo, o rapaz pegou na colher e voltou a passear pelo palácio, desta vez reparando em todas as obras de arte que pendiam do tecto e das paredes. Viu os jardins, as montanhas ao redor, a delicadeza das flores, o requinte com que cada obra de arte estava colocada no seu lugar. De volta à presença do Sábio relatou pormenorizadamente tudo o que tinha visto.
- Mas onde estão as duas gotas de óleo que te confiei? - perguntou o Sábio.
Olhando para a colher, o rapaz percebeu que as tinha derramado.
- Pois este é o único conselho que tenho para te dar - disse o mais Sábio dos Sábios. - O Segredo da Felicidade está em olhar todas as maravilhas do mundo, e nunca esquecer as duas gotas de óleo na colher."
Ao invés de encontrar um homem santo, porém, o nosso herói entrou numa sala e viu uma actividade imensa; mercadores entravam e saíam, pessoas conversavam pelos cantos, uma pequena orquestra tocava melodias suaves, e havia uma farta mesa com os mais deliciosos pratos daquela região do mundo. O Sábio conversava com todos, e o rapaz teve que esperar duas horas até chegar a sua vez de ser atendido.
O Sábio escutou atentamente o motivo da visita do rapaz, mas disse-lhe que naquele momento não tinha tempo para lhe revelar o Segredo da Felicidade. Sugeriu que o rapaz desse um passeio pelo seu palácio, e voltasse daí a duas horas.
- Entretanto, quero pedir-te um favor - completou o Sábio, entregando ao rapaz uma colher de chá, onde deitou duas gotas de óleo. - Enquanto estiveres a caminhar, segura esta colhar na mão sem deixares que o óleo seja derramado.
O rapaz começou a subir e a descer as escadarias do palácio, mantendo sempre os olhos fixos na colher. Ao fim de duas horas, voltou à presença do Sábio.
- Então - perguntou o Sábio - viste as tapeçarias da Pérsia que estão na sala de jantar? Viste o jardim que o Mestre dos Jardineiros levou dez anos a criar? Reparaste nos belos pergaminhos da minha biblioteca?
O rapaz, envergonhado, confessou que não tinha visto nada. A sua única preocupação fora a de não derramar as gotas de óleo que o Sábio lhe tinha confiado.
Pois então volta e conhece as maravilhas do meu mundo - disse o Sábio. - Não podes confiar num homem se não conheceres a sua casa.
Já mais tranquilo, o rapaz pegou na colher e voltou a passear pelo palácio, desta vez reparando em todas as obras de arte que pendiam do tecto e das paredes. Viu os jardins, as montanhas ao redor, a delicadeza das flores, o requinte com que cada obra de arte estava colocada no seu lugar. De volta à presença do Sábio relatou pormenorizadamente tudo o que tinha visto.
- Mas onde estão as duas gotas de óleo que te confiei? - perguntou o Sábio.
Olhando para a colher, o rapaz percebeu que as tinha derramado.
- Pois este é o único conselho que tenho para te dar - disse o mais Sábio dos Sábios. - O Segredo da Felicidade está em olhar todas as maravilhas do mundo, e nunca esquecer as duas gotas de óleo na colher."
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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Amar
Amar é ser livre para poder escolher se prender à pessoa amada. Amar é ver o Mundo se despedaçando sem a presença de quem se ama. Amar é festa, brincadeira de criança, é um longo caminho percorrido a dois. Amar é ir de encontro a mil pessoas, mas estar à procura de apenas uma delas. Amar é tomar sorvete na praça sem ter vergonha de se estar lambuzado ou não. Amar é aquele segredo que se conta sem receio, é um abraço bem dado, é um passeio de mãos dadas. Amar é a mão estendida após a tempestade. Amar é o saber que não se sabe, tampouco se aprende: apenas se vive. Amar é a palavra não dita, é o silêncio barulhento, é a calma abalada. Amar é sorrir para tudo e para todos, é ser aquele grande bobo da classe, é ter histeria de risos. Amar é querer que a pessoa amada seja feliz antes de qualquer outra coisa. Amar não se conjuga: exerce-se.
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Sombra
"A sombra guarda, de nossa personalidade, os lados que não se desenvolveram, as possibilidades, capacidades e intenções inconscientes de nossa alma. Em muitas ocasiões essa sombra é chamada de nosso irmão das trevas."
(Ernst Aeppli)
Prados
Não fazia frio durante aquela manhã, embora um vento gélido, típico da estação, batesse contra o meu rosto, fazendo com que meus olhos ficassem sensíveis ao ponto de lacrimejarem. Havia despertado cedo naquela manhã, supondo que os prados pudessem aliviar a minha dor da noite passada. Isso fora uma grande tolice! Aventurar-me nos prados só serviu para dar mais vazão às minhas lembranças. Pensei em tudo que ocorrera comigo e em tudo que meu pai dissera na noite anterior. Essas lembranças latejavam em minha mente como se fossem maciças clavas fincando-se em meu coração. Eu tinha vontade de chorar, gritar o mais alto possível, até que ela pudesse ouvir minhas súplicas. Eu não compreendia o porquê da nossa separação; sendo constante o meu desejo de procurá-la, aonde quer que ela estivesse. Fiquei deitado sobre os prados até meus olhos se fecharem e minha mente estar absorta com as imagens da véspera.
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Rabiscos
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Rabiscos
Acordei cedo durante esta manhã. O sol lá fora parecia mais vivo do que nunca. Os pássaros cantavam uma canção que eu jamais havia escutado; seus sons pareciam ainda mais vibrantes com os pousos que faziam ao voltar para os seus ninhos. Era primavera, e as flores rodeavam a casa como se fossem guardiãs da paz; suas cores eram tão belas quanto um caleidoscópio. A vida nunca fora tão bela quanto agora. E eu sabia que esse estado duraria para sempre. Eu sabia que a vida havia me reservado paz em baldes. Sentei-me à mesa para apreciar o desjejum com a família. Julia não poderia estar mais bela do que estava nesta manhã. Seus cabelos esvoaçavam-se quando o vento batia neles; sua pele pálida luzia com o brilho do sol; e seus olhos transbordavam de alegria ao se encontrarem com os meus. As crianças brincavam ao lado da mesa. Eram duas lindas meninas, tão belas quanto a mãe. A paz reinava em nossas almas. Duas almas límpidas e calmas, dois corações apaixonados; a vida sempre fora incapaz de nos fazer mal.
Durante a noite cantamos cantigas para as meninas dormirem. Cantigas que escutávamos quando éramos apenas crianças e vivíamos num rancho da família. Julia foi criada pelos meus pais desde que viera ao Mundo. Sua mãe a deixara aos cuidados de meus pais porque se achava incapaz de cuidar da criança. Mas Julia e eu, embora tivéssemos recebido educação dos mesmos pais e vivêssemos como se fôssemos irmãos, nunca sentimos sentimentos de irmandade entre nós. Certa vez, quando fomos a um rio afastado de casa, ela me perguntara se eu a achava bonita, e eu respondi que sim. De início, achei sua atitude normal, mas, depois de vê-la repetidas vezes olhando para mim de forma terna, senti algo diferente por ela. Sempre fazíamos tudo juntos. Éramos praticamente grudados um no outro.
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